Bastidores da Política

R$ 280 mil por 90 minutos

Enquanto a população segue cobrando investimentos em áreas básicas e enfrentando problemas antigos que se arrastam pela cidade, a Prefeitura de Rio das Pedras parece decidida a transformar a Fiacom em um festival de grandes cifras. Depois de gastar R$ 818 mil apenas com shows na edição de 2025, o município já começou a abrir os cofres para a festa deste ano — e os números indicam que a conta ficará ainda mais salgada.

A primeira contratação divulgada oficialmente é da cantora gospel Gabriela Rocha, um dos maiores nomes da música cristã do país atualmente. O show, marcado para o dia 7 de setembro, às 20h, terá duração prevista de uma hora e meia e custará R$ 280 mil aos cofres públicos.

A contratação foi realizada por inexigibilidade de licitação, diretamente com a empresa Criative Agenciamento. Gabriela Rocha acumula números impressionantes nas redes sociais, com mais de 3 bilhões de visualizações no YouTube e cerca de 8,8 milhões de seguidores no Instagram.

Nos bastidores políticos, porém, o assunto inevitavelmente reacende um velho debate em Rio das Pedras: até onde vai o equilíbrio entre entretenimento e prioridades da cidade? Enquanto shows milionários são anunciados com rapidez, moradores seguem cobrando soluções para problemas estruturais, manutenção urbana, saúde e infraestrutura básica.

E a pergunta já começa a circular nos corredores da política local: se o primeiro show da Fiacom 2026 já chega custando R$ 280 mil, quanto custará a festa completa deste ano?

 

O dinheiro da festa

A defesa mais usada por apoiadores da atual administração quando o assunto são os gastos milionários com festas sempre foi a mesma: “esse dinheiro já vem carimbado para entretenimento”.

Mas uma sequência de decretos publicados pela própria Prefeitura de Rio das Pedras nos últimos dias colocou mais lenha nessa fogueira — e enfraquece bastante esse discurso.

Primeiro veio o Decreto nº 2.974, de 21 de maio de 2026, abrindo um crédito adicional suplementar de R$ 500 mil dentro do orçamento municipal. Depois, nesta quinta-feira, o Diário Oficial trouxe mais um remanejamento: outros R$ 470 mil destinados à Secretaria de Cultura.

Na prática, já são quase R$ 1 milhão em reforços recentes ligados à área de Cultura e Turismo justamente às vésperas da Fiacom 2026.

O detalhe que mais chama atenção não é apenas o valor, mas de onde o dinheiro saiu e para onde foi.

No primeiro decreto, a Prefeitura retirou R$ 500 mil de uma dotação ligada a “Vencimentos e Vantagens Fixas – Pessoal Civil”, vinculada ao Gabinete Administrativo, e transferiu o recurso para a ação “Promoção da Cultura e do Turismo”, dentro da classificação “Outros Serviços de Terceiros – Pessoa Jurídica”.

Traduzindo do “orçamentês” para a vida real: contratação de empresas, estrutura, shows, palco, som, iluminação, publicidade, locações, organização de eventos e prestação de serviços terceirizados.

Agora, o novo decreto voltou a reforçar exatamente a mesma área, novamente para “Promoção da Cultura e do Turismo” e novamente dentro da classificação “Outros Serviços de Terceiros”.

Coincidência ou não, os remanejamentos acontecem poucos dias após a divulgação do primeiro grande show da Fiacom 2026: a cantora gospel Gabriela Rocha, contratada por R$ 280 mil para uma apresentação de uma hora e meia.

A Prefeitura, claro, pode argumentar que remanejamentos são legais e fazem parte da gestão orçamentária. E isso é verdade. O ponto político, porém, está na narrativa que começa a perder força.

Isso porque os decretos mostram que não se trata simplesmente de “verbas específicas” que chegaram prontas para entretenimento. O dinheiro está sendo deslocado dentro do próprio orçamento municipal.

E aí surgem as perguntas inevitáveis nos bastidores:

Se havia quase R$ 1 milhão para reforçar Cultura em poucos dias, qual será o tamanho da estrutura da Fiacom deste ano?

Quantos shows ainda virão?

Havia sobra na folha de pagamento?

Existem cargos vagos ou áreas com déficit de servidores?

E principalmente: enquanto o orçamento corre para alimentar os grandes eventos, quais setores acabam ficando em segundo plano?

Nos corredores políticos, a sensação já é clara: a Fiacom 2026 promete ser uma das mais caras da história de Rio das Pedras — e o orçamento municipal parece ter oficialmente entrado no clima da festa.

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