Acordos políticos X ideologia
Ainda há quem acredite que a política deva ser guiada por ideologia. Seja ela partidária, mais à direita ou mais à esquerda, existe sim quem defenda ideias por acreditar que determinado caminho seja o melhor para sua cidade, estado ou país. E nisso não existe necessariamente certo ou errado. Existe convicção, visão de mundo e a forma como cada pessoa entende que a sociedade deve ser conduzida.
O problema começa quando a única ideologia que move alguém é a do próprio interesse.
É justamente nesse terreno que nascem os famosos acordos políticos. Em muitos casos — e aqui falamos de situações hipotéticas, mas extremamente comuns Brasil afora — o apoio político deixa de ser construído por princípios e passa a ser negociado por conveniência. Um cargo comissionado aqui, um espaço ali, uma promessa acolá.
Às vezes surge aquele vereador eleito como o mais votado da cidade. Passa quatro anos defendendo um governo, mesmo convivendo com promessas vazias que pouco beneficiam a população e a seus interesses próprios. Ainda assim, consegue se reeleger como campeão de votos. Mas basta mais um ano de frustrações pessoais para começar a ensaiar aproximação com a oposição, alegando agora divergências ideológicas e insatisfação com os rumos da administração.
Curiosamente, pouco tempo depois, tudo pode mudar novamente. Basta surgir a oferta de um cargo para um aliado próximo, um familiar ou alguém do grupo político. E aquele discurso inflamado sobre princípios desaparece quase que instantaneamente. A suposta ideologia dá lugar ao velho e conhecido fisiologismo.
Esse tipo de político “anu”, que levanta o rabo conforme o vento sopra, acaba perdendo credibilidade de todos os lados. Desagrada o grupo que o acolheu, decepciona o grupo que abandonou e, principalmente, trai a confiança do eleitor. E quando a confiança desaparece, sobra apenas um caminho para tentar se manter no poder: gastar — e muito — para conquistar votos e sustentar artificialmente uma força política que já não existe naturalmente.
Emendas perdidas
A reclamação feita pela vereadora Ana Paula Taranto durante a sessão da Câmara desta semana acendeu mais uma vez um alerta preocupante sobre a capacidade da administração municipal em acompanhar processos burocráticos fundamentais para a cidade. Segundo a parlamentar, a assessoria de um deputado precisou entrar em contato avisando que Rio das Pedras corria o risco de perder recursos por simplesmente não concluir os trâmites necessários para o aceite da emenda parlamentar. O vereador Nivaldo do Depósito afirmou ter enfrentado situação semelhante.
O mais preocupante é que o problema não é novidade. Situações desse tipo já eram relatadas no mandato passado, sob a mesma administração que continua à frente da Prefeitura atualmente. A então vereadora Vanessa Botam também reclamou, em diferentes ocasiões, de alertas enviados por assessorias parlamentares informando que recursos destinados ao município poderiam ser perdidos por falta de manifestação ou andamento da própria municipalidade.
E não estamos falando de valores supérfluos. Rio das Pedras é uma cidade com orçamento limitado, onde grande parte dos recursos já está comprometida com folha de pagamento, saúde e educação — áreas que, inclusive, possuem percentuais mínimos obrigatórios de investimento. Em um cenário assim, perder qualquer emenda parlamentar é algo extremamente grave.
Ainda mais porque conquistar recursos não é tarefa simples. Deputados estaduais e federais precisam dividir suas emendas entre 645 municípios paulistas. Para convencer um parlamentar a destinar verbas para a cidade é necessário articulação política, relacionamento, insistência e muito trabalho dos vereadores e lideranças envolvidas.
Muita gente gosta de repetir que “vereador não faz nada”. Mas, quando um parlamentar consegue abrir portas em gabinetes estaduais ou federais e vê o recurso escorrer pelos dedos por falta de atenção, burocracia mal conduzida ou simples desleixo administrativo, fica evidente que o problema nem sempre está em Brasília ou na Assembleia. Às vezes, está dentro de casa.









