Bastidores da Política

Aniversário sem festa

Rio das Pedras completa 132 anos, mas quem olha para a programação oficial pode até pensar que a data pegou a Prefeitura de surpresa.

A cidade, que em outros tempos já teve rodeios, shows, eventos praticamente diários e uma agenda capaz de movimentar o comércio, reunir famílias e fazer o aniversário do município ser sentido nas ruas, agora vê uma comemoração tímida, quase protocolar.

Da Prefeitura mesmo, sobra basicamente o desfile cívico. Importante, tradicional, bonito, sem dúvida. Mas muito pouco para uma cidade com 132 anos de história.

O curioso é que, quando existe vontade política, tudo aparece: palco, estrutura, som, divulgação, apoio, equipe, tenda, cadeira, faixa, foto, vídeo e até discurso emocionado sobre o amor por Rio das Pedras. Mas, pelo visto, esse amor anda meio seletivo. Funciona melhor quando tem eleição no horizonte.

Neste ano, boa parte do que ainda salva o calendário vem de grupos particulares, organizadores independentes, entidades e pessoas que, mesmo com pouco apoio, insistem em fazer alguma coisa pela cidade. São esses grupos que ajudam a manter acesa a chama das comemorações, enquanto a administração parece cumprir tabela.

E aí fica a pergunta: será que em ano de eleição também seria assim?

Será que, se 2026 fosse ano de pedir voto para prefeito, Rio das Pedras teria apenas desfile cívico? Será que não apareceriam shows, festivais, eventos culturais, atividades nos bairros, agenda cheia e muito marketing dizendo que a cidade nunca foi tão valorizada?

O aniversário de Rio das Pedras não deveria depender do calendário eleitoral. A cidade merece ser celebrada todos os anos, com planejamento, criatividade e respeito à sua população.

Porque festa pública não é favor. É também valorização da história, da cultura, do comércio local e do sentimento de pertencimento de quem vive aqui. Não se fala em exagero, nem em gastar sem critério.

Mas, neste ano, ao que parece, Rio das Pedras ganha parabéns no automático. Sem bolo, sem vela e quase sem festa.

 

Apoio pingado

Se a programação oficial do aniversário de Rio das Pedras já é minguada, o apoio da Prefeitura aos eventos organizados por fora da administração merece um capítulo à parte.

Muitos desses eventos não nascem com fins lucrativos. Também não têm, à exceção de alguns casos, objetivo eleitoral. São organizados por pessoas que querem compartilhar com a população aquilo que gostam, aquilo que enxergam como lazer, cultura, entretenimento e convivência. Gente que coloca tempo, energia e, muitas vezes, dinheiro do próprio bolso para tentar oferecer algo diferente à cidade.

Só que, em Rio das Pedras, quem se dispõe a organizar um evento parece precisar de uma virtude especial: paciência.

Segundo organizadores de mais de uma iniciativa, o tratamento recebido da administração municipal é quase sempre o mesmo. Pedidos de apoio são feitos com antecedência, reuniões acontecem, promessas aparecem, mas as respostas concretas demoram. Os organizadores relatam que são “cozinhados” até o último minuto e acabam praticamente esmolando por estrutura básica: palco, som, telão, banheiros químicos, energia elétrica, sinalização, apoio operacional ou qualquer outro tipo de suporte mínimo.

Quando a desistência já começa a parecer uma opção real, aí caem algumas migalhas da mesa da administração.

Um exemplo é o encontro de supercarros e carros antigos, que no ano passado reuniu cerca de 6 mil pessoas na Avenida Elias Cândido Ayres. Para este ano, até o momento, segundo informações de bastidor, teriam sido disponibilizados apenas cinco banheiros químicos.

Cinco.

Agora imagine a cena: um evento previsto para reunir grande público, com famílias, crianças, colecionadores, visitantes de outras cidades, praça de alimentação, confraternização, cerveja entre amigos e permanência prolongada até depois do horário do jogo do Brasil. Vontade de ir ao banheiro não vai faltar. Estrutura, talvez.

E quando o álcool começa a falar mais alto e a timidez diminui, o risco é óbvio: gente procurando qualquer canto para fazer o que deveria ser feito em local adequado. E aí quem paga o constrangimento? As famílias? As mulheres? As crianças? Os moradores? Os organizadores? Ou a Prefeitura, que poderia planejar melhor o apoio a um evento desse porte?

Falando em Avenida Elias Cândido Ayres, o espaço já se tornou tradicional para a realização de grandes eventos, mas ainda não conta com uma estrutura elétrica adequada e definitiva para esse tipo de atividade. Algo básico, como um poste com relógio próprio para ligação regular da rede elétrica, ainda não saiu do papel.

E aqui entra outro ponto delicado.

Há relatos de que, em anos anteriores, eventos realizados no local teriam contado com ligações improvisadas na rede elétrica, o famoso “gato”, feitas por funcionários da própria Prefeitura a mando de superiores, ainda que, naturalmente, sem qualquer ordem formal por escrito.

Se isso realmente ocorreu, a pergunta é inevitável: de quem seria a responsabilidade?

Dos organizadores, que precisam de energia para realizar o evento? Da Prefeitura e de seus gestores, que autorizam, incentivam ou fazem vista grossa? Ou dos servidores que, na prática, colocam a mão na rede e arriscam a própria segurança para cumprir ordens?

O que não dá é para tratar improviso como política pública. Muito menos normalizar o errado só porque “sempre foi assim”.

Se a Prefeitura quer que a Avenida Elias Cândido Ayres continue sendo palco de eventos, precisa oferecer estrutura compatível com essa vocação. Energia regularizada, banheiros suficientes, segurança, organização e apoio técnico não são luxo. São obrigação mínima.

Para este ano, espera-se ao menos que geradores sejam disponibilizados, para que ninguém precise recorrer a soluções irregulares, perigosas ou vergonhosas.

Porque apoiar evento não é apenas aparecer para a foto quando a avenida está cheia. Apoiar de verdade é planejar antes, estruturar durante e assumir responsabilidade depois.

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