Obras de creche anunciada em 2018 seguem paradas e fila por vagas persiste

Anúncio da construção foi há 8 anos. Foto: Alex Calmon

O que deveria ser um espaço de acolhimento, aprendizado e desenvolvimento infantil hoje se tornou um retrato do abandono. A obra de uma creche no Residencial Luiz Massud Coury, em Rio das Pedras, anunciada há 8 anos como solução para reduzir a fila por vagas na educação infantil, está parada — e em estado avançado de deterioração. O local, que deveria receber crianças, hoje apresenta sinais claros de invasão, uso irregular e risco estrutural.

A construção não passou da fase da laje. Em diversos cômodos, partes da estrutura já cederam. No vão central, ferragens retorcidas indicam que o restante pode desabar a qualquer momento.

A entrada principal está fechada por uma porta improvisada de madeira, presa por correntes. A barreira, no entanto, é apenas simbólica: o acesso pode ser feito facilmente pela lateral da obra.

Dentro do espaço, o cenário é de abandono. Há acúmulo de sujeira, panos espalhados e até um colchão, evidenciando o uso do local por pessoas em situação de rua.

Garrafas de bebidas, pontas de cigarro e pinos de cocaína estão espalhados pelo chão. Em alguns pontos, há marcas de queimaduras, possivelmente causadas pela queima de fiação elétrica — hipótese reforçada pela presença de capas de fios de cobre descascados.

Recentemente, a Unidade Básica de Saúde (UBS) localizada ao lado teve sua fiação furtada, o que aumenta a preocupação com a segurança da área.

A unidade foi anunciada em abril de 2018 pelo Governo do Estado de São Paulo e pela Prefeitura de Rio das Pedras, com capacidade para atender cerca de 130 crianças, dentro do programa Creche Escola. À época, o objetivo era claro: ampliar o atendimento e reduzir a fila por vagas na primeira infância.

Passados anos, a realidade é outra.

De acordo com o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), a obra está paralisada e pode comprometer metas do Plano Municipal de Educação. O relatório aponta ainda que o município atende apenas 33,3% das crianças de 0 a 3 anos, abaixo da meta nacional de 50%.

Há muito lixo espalhado, com pessoas dormindo no local. Foto: Alex Calmon

 

Obra atravessa gestões sem solução

A construção teve início na gestão municipal anterior (2017–2020), mas não foi concluída e segue sem solução mesmo após a mudança de governo em 2021.

Em nota, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) informou que a obra integra o programa Creche Escola, no qual o Estado repassa recursos, elabora o projeto e acompanha a execução por meio da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), cabendo ao município a disponibilização do terreno e a gestão da unidade após a entrega.

Segundo o órgão estadual, o contrato com a empresa responsável foi rescindido, após o descumprimento do cronograma de execução.

Ainda de acordo com a Seduc, um novo estudo está em andamento para a abertura de processo licitatório, com o objetivo de dar continuidade à obra.

Apesar disso, não há prazo informado para retomada ou conclusão.

 

Pouco que resta da laje ameaça cair. Foto: Alex Calmon

Alerta do Tribunal de Contas

No parecer sobre as contas de 2023, o TCE recomendou expressamente que a Prefeitura conclua a obra de forma imediata. O órgão também alertou que a paralisação pode comprometer o atendimento à educação infantil e reforçou a necessidade de ampliar a oferta de vagas no município.

Enquanto a estrutura se deteriora, famílias seguem enfrentando a falta de vagas. Para pais e responsáveis, especialmente de crianças de 0 a 3 anos, a ausência de atendimento em creche significa dificuldade para trabalhar, reorganizar a rotina e garantir um ambiente adequado para o desenvolvimento dos filhos.

O contraste entre o anúncio da obra e o cenário atual expõe mais do que um atraso: revela um projeto que, na prática, não cumpriu sua finalidade.

O que foi planejado para acolher crianças hoje acumula sinais de abandono, insegurança e degradação.

Prefeitura não responde

O jornal O Verdadeiro procurou a Prefeitura de Rio das Pedras com questionamentos sobre a paralisação da obra, prazos e responsabilidades.

Até o fechamento desta edição, não houve retorno por parte do Departamento de Comunicação do município.

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