Réu ontem, apoiador hoje
A política de Rio das Pedras acaba de inaugurar uma modalidade curiosa de aliança: o candidato processa, acusa e cobra indenização; o prefeito acusado responde declarando apoio político, gratidão e confiança. Na ação criminal, Dr. Bonassa (PSB) e sua esposa acusaram o prefeito Marcos Buzetto (Republicanos) e Emerson Vieira (PSB), presidente da Câmara, de responsabilidade por danos durante obras realizadas junto ao Tancão da Painco.
Legalmente, uma coisa não impede a outra. Politicamente, porém, a fotografia exige uma legenda bem mais comprida. Afinal, a pergunta é simples: como alguém acusa outra pessoa de causar tanto prejuízo e, pouco tempo depois, recebe seu apoio político com abraços, discursos e fotografias?
Nos autos, o discurso era outro
Nos processos, os autores afirmaram que Buzetto, então prefeito, e Emerson, na época superintendente do SAAE, teriam agido durante uma obra pública que atingiu terrenos particulares. Também alegaram prejuízos financeiros e omissão dos dois diante da continuidade das intervenções. Essas são acusações apresentadas pelos autores, não fatos definitivamente reconhecidos pela Justiça.
Naquele momento, os termos usados eram dano, invasão, prejuízo e responsabilização. Agora, no palanque, as palavras são gratidão, amizade, confiança e desenvolvimento regional. Entre uma versão e outra, alguma coisa mudou. Só não explicaram ainda o quê.
O processo não virou peça de museu
Também não se trata apenas de uma disputa antiga, esquecida em alguma gaveta judicial. Dr. Bonassa e sua esposa mantêm uma ação indenizatória contra o Município de Rio das Pedras, na qual pedem indenização por 11 lotes que, segundo eles, teriam sido ocupados durante as obras no reservatório sem processo formal de desapropriação.
Em decisão de julho de 2026, a Justiça rejeitou a tentativa do Município de afastar os autores por ilegitimidade, mas não decidiu que houve ocupação irregular nem condenou a Prefeitura. O juízo determinou a realização de perícia para apurar se houve apossamento, qual foi sua extensão, se as obras respeitaram a autorização da Cetesb, se os terrenos estão em área de preservação e qual seria seu valor.
Ou seja: o processo está vivo, relevante e ainda depende de apuração técnica.
Gratidão particular, conta pública
Há um detalhe que torna a situação ainda mais indigesta politicamente. A gratidão declarada por Buzetto é pessoal. Mas, caso a ação seja julgada procedente, a eventual indenização não sairá do bolso do prefeito. O réu é o Município e, portanto, qualquer condenação atingirá os cofres públicos.
Na ação, os autores pediram indenização pelos 11 imóveis, juros, despesas processuais e honorários advocatícios. Mais recentemente, apresentaram como referência o valor de R$ 230 mil para cada lote ou R$ 2,5 milhões pelos 11 lotes, com base na venda de um imóvel vizinho — parâmetro que ainda será submetido à perícia e à decisão judicial.
Resumindo a ironia: a gratidão é do prefeito; a eventual fatura poderá ser do contribuinte.
Republicanos na urna, PSB no coração
Marcos Buzetto foi eleito em 2024 pelo Republicanos. Agora declarou apoio a Dr. Bonassa e Jonas Donizette, nomes apresentados pelo PSB. O próprio Republicanos registra Buzetto entre seus eleitos em Rio das Pedras no último pleito.
Buzetto afirmou publicamente que Bonassa foi fundamental para que ele chegasse à Prefeitura, chegando a dizer que talvez não tivesse se tornado prefeito sem a ajuda do antigo aliado.
A declaração ajuda a compreender a origem da aliança, mas não resolve a contradição. Pelo contrário: reforça a impressão de que antigas dívidas políticas podem falar mais alto do que filiações partidárias, promessas recentes e até disputas judiciais ainda abertas.
Emerson também está no roteiro
O atual presidente da Câmara, Emerson Vieira, aparece como querelado ao lado de Buzetto na queixa-crime. Hoje, Emerson é vereador e presidente do Legislativo pelo PSB, o mesmo partido no qual se movimenta politicamente Dr. Bonassa.
Estar no mesmo partido não significa automaticamente apoiar a candidatura. Mas a coincidência deixa o cenário ainda mais curioso: Bonassa acusou judicialmente duas das principais autoridades municipais e, anos depois, recebe o apoio político de uma delas enquanto divide legenda com a outra.
Rio das Pedras talvez precise de um novo dicionário político. Nele, adversário judicial pode significar aliado eleitoral; acusado pode virar cabo eleitoral; e processo em andamento aparentemente não impede abraço, fotografia ou discurso de gratidão.
O que mudou, afinal?
A pergunta central não é se Dr. Bonassa tinha direito de recorrer à Justiça. Também não existe impedimento legal para que Buzetto o apoie.
A questão é política e moral: como alguém que atribuiu ao prefeito condutas tão graves passa a receber o apoio desse mesmo prefeito sem que nenhuma explicação pública seja apresentada?
Bonassa mudou sua avaliação sobre a responsabilidade de Buzetto? Buzetto passou a considerar legítimas as cobranças feitas pelo agora aliado? Houve reconciliação pessoal? Algum compromisso político foi firmado? Existe possibilidade de acordo no processo? O apoio independe completamente da disputa judicial?
Os documentos analisados não apresentam resposta para nenhuma dessas perguntas. Tampouco demonstram a existência de acordo oculto ou troca de favores. Afirmar isso sem provas seria irresponsável. Mas fingir que não existe uma incoerência evidente seria tratar o eleitor como alguém incapaz de ler duas páginas de um processo.
A memória seletiva da política
No evento político, Buzetto falou em gratidão. E talvez esteja justamente aí a explicação mais simples: chegou o momento de retribuir antigas ajudas.
O problema é que, nessa operação de pagamento de dívida política, Tutinho ficou de lado, o Republicanos foi colocado na arquibancada e uma ação indenizatória contra o Município continua correndo normalmente.
Na política rio-pedrense, a memória parece funcionar de maneira seletiva. Algumas promessas feitas recentemente são esquecidas. Já certas dívidas antigas permanecem vivas, acumulando juros políticos até o momento exato da cobrança.
E, pelo visto, essa cobrança finalmente chegou.









