Politização para os outros, política para ele
A reação do presidente da Câmara, Pastor Emerson Vieira, ao noticiário da última semana foi, no mínimo, curiosa. Incomodado com a repercussão de sua fala sobre os R$ 20 milhões do Governo Federal e, principalmente, com a sugestão nada despretensiosa sobre a volta de Marcos Buzetto ao PSB, Emerson resolveu usar a tribuna para acusar o jornal de “politizar” o debate. A tese, porém, não se sustenta em pé nem por cinco minutos.
Afinal, o que exatamente o presidente esperava? Que um discurso em que ele cita o Governo Federal, menciona o PSB, provoca o prefeito por ter saído do partido, fala em Republicanos e ainda insinua um retorno à antiga legenda fosse tratado como receita de bolo? Não. Aquilo era política em estado puro. E política da mais clássica: com recado, aceno, pressão pública e sinalização de alinhamento.
Aliás, reclamar que um político está “politizando” um tema é quase tão absurdo quanto acusar um advogado de advogar. Política é, literalmente, o ofício de quem ocupa um mandato. Vereador discursa, articula, tensiona, provoca, defende, critica, disputa narrativa, constrói alianças e marca posição. Isso é fazer política. Sempre foi. O problema não é politizar. O problema é querer fazer política, colher os efeitos dela e depois posar de técnico ofendido quando a repercussão não agrada.
Dizer que o jornal “politizou” sua fala é quase como afirmar que o vereador discursou sobre jardinagem, quando na verdade estava até o pescoço no terreno partidário. O problema não está na reportagem, mas no espelho. Emerson quis fazer um gesto político na tribuna e, quando o gesto foi lido como gesto político, passou a agir como se fosse vítima de uma distorção.
Mais curioso ainda é ouvi-lo dizer que “não tem político de estimação” e que não está ali para discutir direita ou esquerda, justamente depois de ter usado a sessão para enaltecer recursos do governo Lula, lembrar que Geraldo Alckmin é do PSB e brincar que, depois que Buzetto saiu do partido, “começou a vir verba”. Isso não é uma fala técnica. Não é uma explanação burocrática. É discurso político — e dos mais explícitos.
No fundo, o incômodo talvez não seja com a politização, mas com o fato de que, desta vez, a tentativa de passar a mensagem nas entrelinhas não ficou só nas entrelinhas. O presidente falou como político, agiu como político e foi noticiado como político. E convenhamos: querer posar de gestor neutro depois de flertar em plenário com a volta do prefeito ao PSB é pedir demais da inteligência do leitor.
Fiscal de jornal, síndico ausente
É preciso agradecer ao presidente da Câmara, Pastor Emerson Vieira, pela deferência. Não é todo dia que um chefe do Legislativo dedica tanto tempo na tribuna para comentar reportagens, criticar bastidores e praticamente atuar como fiscal informal do trabalho da imprensa local. O jornal, ao que parece, virou uma das prioridades da presidência. Pena que o mesmo empenho não esteja sendo visto com a administração do prédio da própria Câmara.
Enquanto Emerson se ocupa em vigiar manchetes, medir adjetivos e se irritar com a repercussão das próprias falas, o patrimônio público sob sua responsabilidade continua dando sinais de abandono. O telhado segue com problemas, as goteiras insistem em fazer sessão própria no plenário e a água continua encontrando caminho para dentro de gabinetes. Se o presidente está tão disposto a exercer fiscalização, talvez pudesse começar pelo imóvel que preside.
A cena beira o irônico: de um lado, um presidente indignado porque o jornal fez aquilo que um jornal deve fazer — noticiar, interpretar e contextualizar fatos políticos. Do outro, a sede do Poder Legislativo convivendo com infiltração, desgaste e problemas estruturais que seguem sem solução à altura. Emerson parece ter escolhido um papel curioso para o mandato: menos presidente da Câmara e mais fiscal de redação.
A verdade é simples e dura: a Câmara de Rio das Pedras não precisa de um tutor da imprensa. Precisa de um presidente que cuide da própria casa. Que olhe para o teto antes de olhar para o Facebook do jornal. Que se preocupe mais com o plenário molhado do que com a manchete que o desagradou. Que entenda que patrimônio público não se preserva com discurso indignado, mas com gestão, manutenção e responsabilidade.
Se o presidente quer tanto se debruçar sobre o trabalho alheio, talvez seja o caso de alguém lembrá-lo de que há um trabalho próprio esperando atenção. Porque não é o jornal que está deixando água cair dentro da Câmara. Não é o bastidor que está encharcando gabinete. Não é a reportagem que está permitindo que o patrimônio público siga se deteriorando. A essa altura, Emerson já demonstrou que acompanha O Verdadeiro com atenção. Falta apenas demonstrar que acompanha, com a mesma dedicação, os problemas da casa que ele foi eleito para administrar.
No fim, a impressão que fica é a de um presidente mais disposto a enquadrar jornalista do que a consertar telhado. Mais atento ao texto publicado do que à água escorrendo pelo prédio. Mais preocupado em responder jornal do que em preservar a Câmara. E isso, sim, é um péssimo bastidor para quem deveria estar ocupado em cuidar do Legislativo — e não em brincar de ombudsman da imprensa.









