A força de uma candidatura própria
A votação de Vanessa Botam (PL) para deputada federal deixou um recado importante para a política rio-pedrense. Com 4.021 votos, a candidata estabeleceu um recorde que não era superado havia 20 anos, ultrapassando os 3.412 votos de Mendes Thame, em 2006. Mas há outro dado que merece atenção: Vanessa conquistou esse resultado tendo o apoio declarado de apenas uma integrante da Câmara Municipal, a vereadora Marga Protetora de Animais. Os demais vereadores que participaram das articulações eleitorais distribuíram seus apoios entre candidatos de fora da cidade. O resultado mostra que Vanessa conseguiu construir uma base eleitoral que não dependeu do respaldo da maioria dos políticos com mandato no município. E isso certamente será levado em consideração nas articulações para 2028.
Todos juntos não chegam lá!
Um levantamento dos resultados eleitorais revela um dado curioso. Somando os votos recebidos em Rio das Pedras pelos sete candidatos a deputado federal apoiados pelos vereadores, excluindo Vanessa, chegamos a apenas 2.543 votos. São os resultados de Carlos Sampaio (414), Rodrigo Gambale (387), Antônio Carlos Rodrigues (238), Jonas Donizette (468), João Cury (276), Missionário José Olímpio (145) e Maurício Neves (615). E tem mais: acrescentando os votos de Vicentinho (596), apoiado pelo ex-vereador Canela, o total sobe para 3.139 votos. Ou seja, 882 votos a menos que Vanessa, mesmo somando oito candidaturas. Evidentemente, não é possível atribuir todos esses votos exclusivamente aos respectivos apoiadores. Ainda assim, a comparação ajuda a dimensionar a força eleitoral demonstrada pela candidata do PL.
A exceção na Câmara
Entre os vereadores rio-pedrenses, Marga Protetora de Animais foi a única que declarou apoio à candidatura de Vanessa Botam. Para deputado estadual, Marga também trabalhou pela reeleição de Alex Madureira (PL), que conquistou 3.737 votos e liderou a votação no município. O deputado também recebeu apoio do vereador Leandro Penatti (PL). Não é possível determinar quantos desses votos vieram especificamente da atuação de cada liderança, mas o resultado mostra que o nome de Madureira encontrou respaldo expressivo na cidade. Enquanto isso, a maioria dos integrantes da Câmara preferiu apostar em outras candidaturas, algumas delas com resultados bastante modestos.
Cada um para um lado
Os vereadores Nivaldo do Depósito (Republicanos), Max Prestes (PP) e Jhony do Depósito (PL) seguiram caminhos diferentes. Nivaldo apoiou Franco Sardelli (PL), que recebeu 586 votos para estadual, e Carlos Sampaio (PSD), com 414 votos para federal. Max trabalhou com Kaká do Autismo (Podemos), que conquistou 517 votos para estadual, e Rodrigo Gambale (Podemos), com 387 para federal. Já Jhony apoiou Marcos Damásio (PL), que recebeu 447 votos para estadual, e Antônio Carlos Rodrigues (Podemos), com 238 para federal. A pulverização dos apoios mostra como os vereadores buscaram construir suas próprias alianças, sem a formação de um bloco político em torno das candidaturas locais. Resta saber quais dessas alianças permanecerão vivas depois das eleições.
Três vereadores, poucos votos
A bancada do PSB, formada pelo presidente da Câmara, Pastor Emerson Vieira, e pelos vereadores Sóstenes Rocha Lima e Rosildo Show, também entrou na disputa. Os três apoiaram Higor Diego (Republicanos), que terminou com apenas 202 votos para deputado estadual em Rio das Pedras. Para federal, o escolhido foi Jonas Donizette (PSB), que conquistou 468 votos. Os números chamam atenção porque estamos falando de três vereadores que, juntos, receberam 1.587 votos nas eleições municipais de 2024. Embora as disputas sejam diferentes e não exista transferência automática de votos, o desempenho dos candidatos apoiados pelo trio demonstra que reunir mandatos não significa, necessariamente, reunir eleitores em torno de um mesmo nome.
Apoios que não renderam
Outros vereadores também tiveram resultados discretos. Leandro Penatti (PL) apoiou João Cury (MDB), que recebeu 276 votos para deputado federal, enquanto trabalhou o nome de Alex Madureira para estadual. Edison Marconato (Republicanos) esteve com Missionário José Olímpio (PL), que conquistou 145 votos para federal, e Rodrigo Moraes (PL), com 164 votos para estadual. Já Professor Geraldo apoiou Itamar Borges (MDB), que recebeu apenas 66 votos no município. Os resultados evidenciam a dificuldade de transformar prestígio político municipal em votos para candidatos de outras cidades. Uma coisa é conquistar o próprio mandato de vereador; outra, bem diferente, é convencer o eleitor a acompanhar suas escolhas nas eleições estaduais e federais.
E a força da Prefeitura?
Parte expressiva dos funcionários comissionados da Prefeitura, sob a articulação política do ex-vereador Bé Cecote (PP) e da vereadora Ana Paula Taranto (PP), trabalhou pelas candidaturas de Maurício Neves (PP), para federal, e Danilo Joan (PP), para estadual. Os dois terminaram com 615 e 606 votos, respectivamente. Não foram resultados desprezíveis, mas também ficaram distantes das principais votações do município. A movimentação merece atenção especialmente porque o grupo ligado à administração municipal não concentrou esforços na candidatura do próprio vice-prefeito Tutinho (Republicanos), que disputava uma vaga na Assembleia Legislativa. O episódio reforça a percepção de que existem diferentes grupos e interesses políticos dentro da estrutura que cerca a administração municipal. Estar no mesmo governo, aparentemente, não significa caminhar na mesma direção eleitoral.
Canela mostrou serviço
Fora da Câmara e da estrutura da Prefeitura, o ex-vereador Canela (PT) também demonstrou capacidade de articulação. Ele apoiou a deputada estadual Professora Bebel (PT), que recebeu 1.257 votos em Rio das Pedras, terminando na terceira colocação para o cargo. Para federal, o escolhido foi Vicentinho (PT), que conquistou 596 votos e ficou em quinto lugar. Em uma cidade onde os candidatos ligados à direita tiveram ampla vantagem nas disputas majoritárias, o resultado da Professora Bebel merece destaque. É um indicativo de que o PT continua contando com um eleitorado próprio no município, mesmo diante de um cenário eleitoral predominantemente favorável aos seus adversários políticos.
Tutinho ficou pelo caminho
O desempenho do vice-prefeito Tutinho (Republicanos) também deverá provocar reflexões. Candidato a deputado estadual, ele recebeu 1.080 votos, terminando na quarta colocação, atrás de Alex Madureira (3.737), Eduarda Campopiano (1.691) e Professora Bebel (1.257). O resultado se torna ainda mais significativo quando comparado às votações de outros políticos rio-pedrenses que disputaram o mesmo cargo: Marcos Buzetto recebeu 5.422 votos em 2002, enquanto Dr. Júlio César conquistou 5.456 em 2006. Ambos seriam eleitos prefeitos posteriormente. Tutinho, apesar de ocupar a vice-prefeitura e acumular três mandatos como vereador, não conseguiu repetir o desempenho dessas lideranças. A falta de apoio de integrantes da própria base governista ajuda a compreender as dificuldades políticas enfrentadas durante a campanha, embora não seja possível medir isoladamente seu efeito nas urnas.
Nem o próprio partido
Outro detalhe que não passou despercebido foi o posicionamento dos vereadores do Republicanos, mesmo partido do vice-prefeito Tutinho. Nivaldo do Depósito preferiu apoiar Franco Sardelli (PL), enquanto Edison Marconato trabalhou pela candidatura de Rodrigo Moraes (PL). Ou seja, dois vereadores do partido do vice-prefeito fizeram campanha para concorrentes diretos dele. A situação deixa evidente que a legenda não caminhou unida em Rio das Pedras. Mais do que um resultado eleitoral, o episódio expõe as dificuldades de articulação política de Tutinho dentro de seu próprio campo partidário. E deixa uma pergunta para os bastidores: se não conseguiu reunir o apoio dos companheiros de partido em 2026, como pretende construir uma base mais ampla para os próximos desafios políticos?
O tabuleiro de 2028 já começou a mudar
O resultado de domingo não elegeu Vanessa Botam nem Tutinho, mas certamente terá reflexos nas eleições municipais de 2028. Vanessa sai da disputa com uma votação histórica e a demonstração de que possui uma base eleitoral expressiva, mesmo sem o apoio da maioria dos vereadores. Tutinho, por outro lado, terá de avaliar por que sua candidatura não conseguiu mobilizar parte significativa do eleitorado e sequer unificar seu próprio partido. Também será necessário observar os movimentos dos vereadores, ex-vereadores e grupos ligados à Prefeitura, que passaram a eleição construindo alianças distintas. Em política, os apoios de hoje podem se transformar nas composições — ou nos rompimentos — de amanhã. E, se a eleição de 2026 serviu como termômetro, o cenário político de Rio das Pedras promete movimentações importantes nos próximos dois anos.









