Bastidores da Política

O gramado pagou a conta

Meses atrás, a Secretaria de Esportes dizia que o gramado do Campão era “sempre prioridade”. Depois da Fiacom, ficou difícil saber prioridade para quem.

O que era campo de futebol virou suporte para barracas, trailers, praça de alimentação, palco, carga, descarga e circulação de veículos. Terminada a festa, desmontadas as estruturas e apagadas as luzes, quem ficou com o prejuízo foi justamente o esporte.

E não é um detalhe.

Ali acontecem jogos, campeonatos, treinamentos e atividades de atletas amadores que dependem daquele espaço. Gente que passa o ano inteiro ouvindo discurso sobre incentivo ao esporte e, de uma hora para outra, vê o principal campo da cidade transformado em recinto de evento.

O gramado estava bom.

Então fizeram a festa em cima dele.

Agora será preciso recuperar aquilo que estava em condições de uso antes de a própria Prefeitura decidir ocupar o espaço com uma estrutura incompatível com um campo de futebol.

É quase uma aula prática de administração pública: primeiro cuida, depois destrói e, na sequência, provavelmente será necessário gastar para cuidar de novo.

Enquanto isso, atleta espera.

Campeonato espera.

O futebol amador espera.

A festa acabou no domingo, mas para quem usa o Campão o efeito pode durar muito mais tempo.

E tudo isso em uma Fiacom que já chegou à 14ª edição.

Não dá mais para tratar a realização do evento como uma novidade que pegou todo mundo de surpresa. São 14 oportunidades para aprender que palco, caminhão, trailer, barraca e praça de alimentação não combinam exatamente com gramado de estádio.

O problema é antigo e conhecido: Rio das Pedras não possui um espaço adequado para grandes eventos.

Por isso, a cultura vai sendo empurrada para onde cabe. Uma hora ocupa praça, outra hora vai para estádio, depois procura outro canto. E quando cultura e esporte precisam disputar o mesmo espaço, alguém acaba pagando a conta.

Desta vez, quem pagou foi o gramado.

E, junto com ele, o futebol.

Talvez esteja na hora de a Prefeitura entender que investir em cultura não significa destruir estrutura esportiva.

E que planejamento não é descobrir onde montar a próxima barraca.

Planejamento é garantir que, quando a festa terminar, a cidade não esteja pior do que estava antes dela começar.

 

Começaram pelo batom?

Depois de olhar para o gramado do Campão destruído pela Fiacom, basta atravessar alguns metros e entrar no Ginásio Municipal para descobrir que o esporte rio-pedrense conseguiu tomar pancada dos dois lados.

O Ginásio Pedro Walter Guidolim está em reforma há quase dez meses. Ficou fechado para o esporte. O tradicional futsal do Primeiro de Maio não aconteceu ali neste ano. O contrato passa dos R$ 330 mil.

E o que se encontra?

Parte da pintura feita. Calçamento novo no entorno.

Mas as trincas continuam nas arquibancadas, os vidros continuam quebrados, os banheiros seguem sem intervenção aparente e o telhado continua com goteiras.

Aí surge uma dúvida quase doméstica.

Quando você vai tomar banho, começa lavando os pés, coloca a roupa, passa perfume e só depois resolve lavar a cabeça?

Numa reforma, não deveria funcionar de forma parecida?

Primeiro se resolvem os problemas mais graves — cobertura, infiltrações, trincas, instalações, estrutura — para depois partir para acabamento e pintura.

Ou será que, por alguma razão, no Ginásio Municipal resolveram começar pelo batom antes de tratar as feridas?

A pergunta fica ainda mais inevitável porque a Fiacom estava chegando.

Então vale perguntar: o que foi executado até agora fazia parte de uma sequência técnica normal da reforma ou houve uma corrida para dar uma maquiagem no ginásio antes de receber a feira?

Porque maquiagem pode melhorar a aparência.

Só não segura chuva.

E a prova disso estava lá durante a própria Fiacom: enquanto empresas expunham seus produtos dentro do ginásio, as velhas goteiras continuavam pingando sobre uma obra que, desde o começo, tinha justamente a cobertura entre seus principais problemas.

Depois de quase dez meses fechado para o esporte, talvez tenha chegado a hora de trocar o pincel de pintura pela ferramenta de obra.

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