Causa animal expõe ruídos, vaidades e empurra-empurra
A discussão sobre a causa animal na Câmara revelou mais do que pedidos de ajuda. Escancarou um cenário de desorganização, disputa de espaço e, principalmente, transferência de responsabilidade.
A vereadora Marga Protetora dos Animais, que há anos atua de forma independente e muitas vezes anônima na proteção de animais, voltou a cobrar uma estrutura mínima do poder público. O desabafo foi direto: casos se acumulam, pedidos aumentam e o apoio institucional… não aparece.
Mas o incômodo vai além.
Nos bastidores da própria Prefeitura, um servidor da Saúde passou a se apresentar como atuante na causa animal — embora seu cargo oficial seja outro. O problema não é ajudar. Pelo contrário. É como isso tem sido feito.
Em vez de absorver as demandas ou encaminhá-las dentro da estrutura pública, o que se vê, segundo relatos, é o repasse direto dos casos para a vereadora. Na prática, a “bomba” muda de mãos — mas continua sem solução.
E mais: o movimento vem acompanhado de críticas públicas ao trabalho de quem já atuava na causa muito antes de qualquer cargo ou função.
Durante a sessão, o clima esquentou quando a vereadora Ana Paula Taranto interrompeu a fala para corrigir informações e assumir que despesas com atendimento animal saíram do próprio bolso. O vereador Professor Geraldo também afirmou custear atendimentos veterinários. O episódio escancarou outro problema: a ausência de política pública efetiva faz com que a conta, literalmente, recaia sobre indivíduos.
Enquanto isso, a promessa de uma estrutura para atendimento animal surge com alcance limitado: um espaço de pronto atendimento, sem internação e longe de resolver a demanda crescente. E essa estrutura, que demorou anos para chegar ao município, ainda está longe de entrar em atividade.
No fim, sobra boa vontade — e falta gestão.
E quando o poder público não assume seu papel, alguém acaba assumindo.
Nem sempre por escolha.
Quando o foco muda, a lei some
O presidente da Câmara, Emerson Vieira, subiu o tom na sessão e partiu para o ataque. Criticou reportagem de O Verdadeiro sobre as goteiras no prédio do Legislativo e se incomodou com vídeos da página RDP em Foco Notícias que satirizou a situação do plenário. Até aí, incômodo compreensível — afinal, a imagem pública também entra em jogo.
O problema é o que veio depois. E o alvo da vez passou a ser o vereador Leandro Penatti, após vídeo cobrando o cumprimento da lei sobre veículos abandonados.
A resposta não foi sobre a lei. Foi sobre o vereador.
Vieira questionou o uso de uma área pública por parte da empresa do vereador. Penatti rebateu afirmando que há acordo com o prefeito para utilização do espaço, inclusive com investimento próprio de cerca de R$ 35 mil na conservação do terreno — realidade bem diferente de outros espaços públicos que seguem largados.
E é aí que mora o detalhe.
Quando a discussão deixa de ser “a lei está sendo cumprida?” para virar “quem está certo ou errado?”, o problema muda de lugar. Sai do campo institucional e entra no campo pessoal. E, nesse movimento, a cobrança perde força.
Porque a questão central permanece intocada: há leis municipais que simplesmente não são aplicadas.
Seja por falta de estrutura, gestão ou prioridade, o fato é que elas existem — mas não saem do papel. E, enquanto isso, a cidade convive com problemas recorrentes que já poderiam estar sendo enfrentados com base na própria legislação.
No fim, o roteiro se repete: diante da cobrança, muda-se o foco.
E quando o foco muda, a lei — mais uma vez — fica para depois.
Presença que chama atenção — e dá exemplo
Em meio a embates e cobranças, uma presença tem se tornado quase constante nas sessões da Câmara: a do diretor de Obras, Gustavo Bilio. Naturalmente, acaba sendo um dos mais acionados pelos vereadores, que aproveitam a oportunidade para questionar demandas, obras paradas e serviços da pasta.
E o que se vê é uma postura que merece registro.
Sempre solícito, educado e direto, o diretor responde aos questionamentos sem rodeios, no momento em que é provocado. Sem fuga, sem silêncio e sem a necessidade de ofícios formais para obter respostas básicas.
Num cenário em que muitas vezes a informação custa a chegar, a atitude chama atenção.
E mais: expõe, por contraste, uma ausência.
Se um diretor consegue estar presente, ouvir, responder e prestar contas, por que outros ainda preferem a distância?
Fica o exemplo. Simples — e, ao mesmo tempo, raro.









