O silêncio do cortejo era quebrado apenas pelo som dos passos lentos e pelo choro contido dos familiares. Após o velório, o trajeto seguiu como manda a tradição, pelas ruas Joaquim Leite, Ademar de Barros e Moraes Barros. O caixão passou em frente ao Cemitério Municipal de Rio das Pedras, local que simboliza despedida, respeito e memória. Mas, naquele dia, os portões não se abriram. Entre a dor da perda e o peso do luto, o cortejo seguiu adiante e entrou pela antiga garagem municipal.
Ali, o cenário contrastava com o momento vivido pelas famílias. Veículos da frota municipal sucateados, mato alto, lâmpadas fluorescentes quebradas, estruturas de ferro jogadas pelo chão e materiais acumulando água parada compunham o ambiente do sepultamento. Em meio à tristeza, os familiares se despediram de seus entes em um espaço improvisado, distante da dignidade que o momento exige.
A prática de sepultamentos fora da área tradicional do cemitério, com acesso pela antiga garagem municipal, ganhou ampla repercussão após a publicação de um vídeo nas redes sociais do O Verdadeiro, que ultrapassou 55 mil visualizações e provocou forte comoção e debate público.
Diante da repercussão, a Prefeitura de Rio das Pedras iniciou a construção de novas gavetas funerárias dentro da área do Cemitério Municipal. De acordo com informações apuradas pela reportagem, nove novas gavetas já foram construídas, com previsão de chegar a 12 unidades nesta etapa da obra. Segundo informações extraoficiais, o espaço onde as estruturas estão sendo implantadas teria capacidade para receber até 60 unidades funerárias, conforme a demanda futura do município.
Até então, os sepultamentos realizados fora do cemitério eram destinados, principalmente, a famílias de baixa renda que não possuem jazigos próprios. Além das condições precárias do local, outro fator que gerava indignação era a impossibilidade de visitação posterior, já que a entrada da antiga garagem municipal permanece fechada ao público.
Em nota encaminhada à reportagem, o Departamento de Comunicação da Prefeitura informou que as obras no cemitério têm como objetivo ampliar o atendimento à população.
“O Cemitério Municipal está recebendo obras que vão ser de grande importância para os momentos de perdas de pessoas que não possuem túmulos na cidade ou para moradores em situação de rua. Novas unidades estão sendo construídas e já somam nove novas jazigas [sic], com previsão de chegar a 12. Além disso, há previsão de se aumentar o número conforme a demanda apresentada pela cidade. Recentemente o assunto voltou a ser tema devido a um sepultamento que precisou ser feito através do muro da garagem, na parte externa do cemitério (SIC)”, informou a Prefeitura.
A repercussão do caso nas redes sociais foi imediata. Entre os comentários, o pastor José Carlos Gueiros questionou a legalidade da prática: “E isso pode? É permitido? O lugar é apropriado para esse fim? E as autoridades responsáveis falam o que sobre isso?”.
O padre Anselmo também se manifestou: “Sepultar os mortos é uma obra de misericórdia. Que descaso. Se não tem um espaço para os sepultamentos, seria viável outra maneira mais digna de fazer isso”.
Outros moradores expressaram indignação com a situação. “Misericórdia, que horror. Isso não pode estar acontecendo. Cadê o prefeito e vereadores dessa nossa cidade? Um absurdo”, comentou Carmem Gardim.
“Desumano, tanto para as famílias quanto para quem trabalha no local”, escreveu Naiâmara Pauluk.
“Isto é desumano. Pelo menos tirar as carcaças dos veículos e capinar”, afirmou Meyre Oriani.
“Uma enorme falta de respeito com quem descansou, com os familiares e com os funcionários que trabalham no local”, destacou Giovanni Henrique.
A construção das novas gavetas dentro do Cemitério Municipal é vista como um passo necessário, mas moradores e leitores seguem cobrando que o município adote soluções definitivas, dignas e planejadas, garantindo respeito às famílias enlutadas, aos falecidos e também aos servidores que atuam nos serviços funerários.









